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Pedro Ferreira Instalação
   

 

   
     
 

Antifonia 2008

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Antifonia
(canto em oitavas; canto alternado entre dois coros; que responde, que acompanha)

O instrumento está suspenso na possibilidade, é retirado da função
e enterrado com o desaparecimento daquele que o usa, que o faz ser aquilo para o qual foi construído. É ao mesmo tempo um objecto que possibilita a possibilidade, como uma garganta que possibilita a voz. Possui o desconhecido, encerrando-o na sua sombra, é umbral, esconde a luz. É uma caverna à qual não há acesso – é a tenda do nómada, mas com um sentido invertido, porque não nos deixa aceder ao seu conforto de interior, no conhecimento, ele deixa-nos do lado de fora, sem vestígio nem resto, e sem o mais pequeno sibilar da voz.

O caçador trabalha um risco, uma de suas mãos agarra uma
inominável charneira vertical, essa mão possui um arco, a outra
uma seta. Nesta condição o caçador caça voltado para fora do seu corpo, da superfície exterior do corpo próprio para fora na direcção de outros corpos, de si para o outro num exercício mortal, de vociferação. No movimento de rotação do corpo, na busca de sentido, o arco traça um muro invisível e silencioso interrompido apenas pelo estalar da corda no momento do lançamento da seta – é este o refrão que
anuncia repetidamente a vocação. O som produzido por essa corda, nesse momento preciso, é o que torna possível ao caçador ser
caçador, é o sinal que presentifica a instância inanimada do caçado
e a separação entre caçador e caçado. O caçador é uma possibilidade
– assim está num futuro por vir – o caçado é um alvo – assim está à partida num passado já passado.

Como uma coluna, o arco é para o caçador o seu denominador, e por isso ele se agarra com força ao que sustém a própria verticalidade do corpo, porque o alimenta e faz dele o alimentador. E como uma coluna,
o arco roda verticalmente em torno da mão, voltando-se mortalmente para este – passagem de caçador para caçado.

Na vocação de caça o caçador/caçado, por um lado substantiva-se
por si só designando a própria substância, por outro lado, acompanha
a substantivação determinando-a e qualificando-a. O caçado determina e qualifica o caçador e é por isso o apanhado na caça. O caçador subsiste sempre incompleto.

Neste momento, se disparar a seta voltada para si próprio ganha
a possibilidade de separar caçador de caçado, tornando díspares os dois que se complementam – inicialmente já o eram, dois intocáveis
em vocação – mas junta-os ao mesmo tempo, dois intocáveis em caça, anulando-se porque são um. Se retirar a seta, deixando apenas arco, caçado e caçador, deixa de haver anulação, mas mantém-se a infinita rotação. O suspenso estalar da corda despida de seta, permanente-mente em estalo – faz-se no infinito refrão da vocação.

Pedro Ferreira 2008