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Antifonia
(canto em oitavas; canto alternado entre dois coros; que
responde, que acompanha)
O instrumento está suspenso na possibilidade, é
retirado da função
e enterrado com o desaparecimento daquele que o usa, que o faz ser aquilo
para o qual foi construído. É ao mesmo tempo um objecto
que possibilita a possibilidade, como uma garganta que possibilita a voz.
Possui o desconhecido, encerrando-o na sua sombra, é umbral, esconde
a luz. É uma caverna à qual não há acesso
– é a tenda do nómada, mas com um sentido invertido,
porque não nos deixa aceder ao seu conforto de interior, no conhecimento,
ele deixa-nos do lado de fora, sem vestígio nem resto, e sem o
mais pequeno sibilar da voz.
O caçador trabalha um risco, uma de suas mãos agarra uma
inominável charneira vertical, essa mão possui um arco,
a outra
uma seta. Nesta condição o caçador caça voltado
para fora do seu corpo, da superfície exterior do corpo próprio
para fora na direcção de outros corpos, de si para o outro
num exercício mortal, de vociferação. No movimento
de rotação do corpo, na busca de sentido, o arco traça
um muro invisível e silencioso interrompido apenas pelo estalar
da corda no momento do lançamento da seta – é este
o refrão que
anuncia repetidamente a vocação. O som produzido por essa
corda, nesse momento preciso, é o que torna possível ao
caçador ser
caçador, é o sinal que presentifica a instância inanimada
do caçado
e a separação entre caçador e caçado. O caçador
é uma possibilidade
– assim está num futuro por vir – o caçado é
um alvo – assim está à partida num passado já
passado.
Como uma coluna, o arco é para o caçador o seu denominador,
e por isso ele se agarra com força ao que sustém a própria
verticalidade do corpo, porque o alimenta e faz dele o alimentador. E
como uma coluna,
o arco roda verticalmente em torno da mão, voltando-se mortalmente
para este – passagem de caçador para caçado.
Na vocação de caça o caçador/caçado,
por um lado substantiva-se
por si só designando a própria substância, por outro
lado, acompanha
a substantivação determinando-a e qualificando-a. O caçado
determina e qualifica o caçador e é por isso o apanhado
na caça. O caçador subsiste sempre incompleto.
Neste momento, se disparar a seta voltada para si próprio ganha
a possibilidade de separar caçador de caçado, tornando díspares
os dois que se complementam – inicialmente já o eram, dois
intocáveis
em vocação – mas junta-os ao mesmo tempo, dois intocáveis
em caça, anulando-se porque são um. Se retirar a seta, deixando
apenas arco, caçado e caçador, deixa de haver anulação,
mas mantém-se a infinita rotação. O suspenso estalar
da corda despida de seta, permanente-mente em estalo – faz-se no
infinito refrão da vocação.
Pedro Ferreira 2008
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